Curando as feridas da Violência

Pierluca Santoro

di Silvia Ivancko

Desde que se têm notícias do aparecimento do Ser Humano, sabe-se que o convívio com a agressividade faz parte do cotidiano. Se voltarmos aos homens das cavernas, sabemos que havia disputas por territórios, por lideranças, pela caça e sobrevivência individual e do grupo. As ameaças vinham de outra tribo ou grupo, de animais ferozes e as armas eram lutar fisicamente munidos de algum instrumento de pau ou de pedra.

Avançando na história do mundo, podemos perceber que a sociedade se organizou melhor limitando seus espaços, dividindo e distribuindo as diversas tarefas da sociedade, mas continuaram lutando uns contra os outros disputando para aumentar o poder e o território, assim como acumular riquezas.

Sentir-se ameaçado e buscar uma preservação da integridade física sempre acompanhou o ser humano. Mas o que muda, nos diferentes momentos históricos, é aquilo que nos ameaça e como pretendemos nos preservar.

Vivemos em um mundo onde a crescente violência invade a sociedade, a família e o indivíduo. Todos nós sentimos os efeitos da violência, seja ela sofrida por nós mesmos ou pela ameaça da mesma que ronda nosso dia a dia.

Sabemos que vamos sair de casa e enfrentar possibilidades de assaltos, balas perdidas, sequestros relâmpagos, arrastões nas praias, furtos ao nos distrairmos, acidentes de trânsito, entre outros perigos. As ameaças são reais, existem, mas elas podem não ocorrer de fato e mesmo assim sofremos a existência delas; mesmo que estejam somente no campo das possibilidades. A este esforço que fazemos para nos adaptar, manter nossas vidas, integridade física e mental diariamente chamamos de stress. O stress não nos prejudica se for momentâneo, como por exemplo, ao atravessar uma rua movimentada. Paramos na faixa de segurança, aguardamos o sinal fechar, verificamos se todos os carros pararam, se é seguro atravessar e nos apressamos a cruzar a rua antes que o sinal se abra novamente. Houve um pequeno stress que se apresenta a cada situação nova na nossa vida e que ao ser “resolvida”, a tensão se esvai e podemos retornar a um estado de relaxamento.

Atualmente se usa o termo “stress” para cansaço, irritação, sobrecarga do dia a dia, mas stress é um conceito bem mais complexo que abrange desde uma situação rápida e momentânea até a exaustão total em vários níveis.

Hans Seyle (1965) usou o termo Stress para nomear o “conjunto de reações que um organismo desenvolve ao ser submetido a uma situação que exige esforço para a adaptação”. O autor expõe que o organismo, quando exposto a um estímulo percebido como ameaçador à homeostase (equilíbrio do organismo), tende a responder de forma uniforme e inespecífica, anatômica e fisiologicamente e a esse fenômeno Seyle chamou de “Síndrome Geral de Adaptação”.

Essa síndrome foi classificada em três fases: Reação de Alarme, Fase de Resistência e Fase de Exaustão.

Na reação de Alarme, o organismo, ao sentir-se ameaçado, prepara-se para a luta ou fuga, aumentando assim a frequência cardíaca e a pressão arterial, permitindo maior oxigenação celular. Nesta fase, o baço se contrai, levando mais sangue à circulação, o fígado libera açúcares para gerar mais energia para os músculos e cérebro, a frequência respiratória também aumenta dilatando os brônquios para captar e receber mais oxigênio. Além disso, as pupilas se dilatam, aumentando a eficiência visual e os linfócitos são aumentados na corrente sanguínea a fim de reparar possíveis danos ao tecido.

Ao se extinguirem os agentes stressantes, as reações tendem a regredir até desaparecerem, porém, se o organismo for obrigado a manter seu esforço de adaptação, entrará na Fase de Resistência.

A Fase de Resistência caracteriza-se pela reação de hiperatividade córticosuprarenal, mediada pelo diencéfalo e hipófise, com aumento no córtex da suprarrenal, desencadeando a atrofia do baço e das estruturas linfáticas, leucocitose, diminuição de eosinófilos e surgimento de ulcerações. Ou seja, o organismo começa a não se autorregular normalmente. Ao persistirem os agentes agressores por repetição, ou por tornarem-se crônicos, o organismo entra em Fase de Exaustão.

A Fase de Exaustão é caracterizada pela diminuição de amplitude e antecipação das respostas, podendo gerar falhas nos mecanismos de defesa, dificuldade na manutenção de mecanismos adaptativos, perdas de reservas e morte. Nesta fase também temos o stress conhecido por “Burnout”, ou o stress extremo causado por agentes duradouros especificamente ligados ao excesso de trabalho e pressões sofridas no mesmo e que sempre é acompanhado por sintomas e/ou doenças físicas.

O stress pós-traumático ocorre, como o próprio nome diz, após a pessoa sofrer um trauma. Algumas vezes a pessoa enfrenta a situação de perigo com racionalidade, aparente frieza e após o perigo, sofre “sequelas” por ter vivido determinada situação. Essas consequências podem variar em cada um, mas inclui depressão, síndrome de pânico, sintomas físicos, medo crônico, perda de autoconfiança, etc. Tudo é muito pessoal, um evento pode ser traumático para uns e não ser para outros e vai depender da estrutura psíquica de cada um, dos recursos pessoais de enfrentamento de adversidades (também chamado estratégias de coping).

Mas nem sempre estamos seguros em casa. Refiro-me à violência doméstica contra a mulher ou contra crianças e adolescentes; que apesar de leis terem sido criadas como a Lei Maria da Penha e Estatuto da Criança e Adolescente (ECA), ainda vemos muitas mulheres serem brutalmente assassinadas pelos companheiros, crianças serem abusadas, prostituídas ou obrigadas a trabalhar, além de serem agredidas. Se já é difícil lidarmos com o perigo externo, muito pior quando ele está no suposto lar, gerando sequelas muitas vezes definitivas!

Outra forma de violência a que estamos expostos é o chamado assédio moral (mais frequente em adultos no ambiente de trabalho) e o bullying (que ocorre mais em crianças e adolescentes em ambiente escolar). Estas agressões implicam em usar o poder ou força para intimidar, excluir, implicar, humilhar, não dar atenção, fazer pouco caso e perseguir alguém por alguma condição, característica ou situação. Assim como as discriminações por religião, raça, sexualidade sofridas por grupos de minoria, estes tipos de agressões não físicas alteram a autoestima, autoimagem, e podem causar vários tipos de transtornos.

Mello Filho (1992) refere à importância de termos consciente, que o conflito é um grande gerador de problemas a ponto de produzir transformações nas funções orgânicas, que de acordo com a frequência e persistência, podem acarretar alterações na vida celular e ocasionar lesões. Esse quadro piora quando as emoções são muito contidas e inadequadamente expressas, normalmente por excesso de hostilidade ou de submissão, relata o autor.

Independente de a violência vir de um meio externo, do trabalho, em casa, da escola, de ser física ou emocional, podemos sofrer danos que podem durar minutos, anos ou a vida toda. As formas de adoecer também são diversas e muito particulares.

Falando de psicossomática é importante ressaltar que esse termo envolve corpo e mente, resultando em alguma disfunção, patologia, doença que pode comprometer o físico ou não. Apesar de dividirmos, para efeitos didáticos, o corpo da mente, somos indivisíveis e tudo o que interfere na mente produz alterações no corpo e tudo o que é sofrido no corpo provoca alterações na mente.

Segundo Rodrigues e Gasparini (1992), há doenças “… em que notoriamente há um componente de esforço de adaptação, como por exemplo, nas úlceras digestivas, nas alterações dispépticas, crises hemorroidárias, alterações da pressão arterial (ditas essenciais), alterações na parede dos vasos sanguíneos, alguns tipos de doenças renais, alterações inflamatórias do aparelho gastrintestinal, diversas afecções dermatológicas, alterações metabólicas várias, manifestações alérgicas, artrites reumáticas e reumatoides, perturbações sexuais, comprometimento do sistema imunológico e algumas alterações tireoidianas.” (p.99)

Definir violência é muito complexo, porque o conceito está inserido em um contexto sociocultural, podendo ainda ser referido como um fenômeno histórico e cultural, onde todos os atos que ferem diretamente os direitos humanos são tipos de violência. Os atos de violência causam ou podem causar lesões, morte, danos psíquicos, alterações do desenvolvimento, privações temporárias ou definitivas, tornando-se um processo na vida psicossocial. Como consequência, pode potencializar o medo, a insegurança e a revolta, levar à redução da autoestima e da capacidade produtiva, à depressão e ao isolamento social e diminuir os sistemas de defesa desencadeando as doenças psicossomáticas.

Os transtornos psicossomáticos podem estar acompanhados de alterações biológicas comprováveis, como úlceras e artrite reumatoide ou das manifestações patológicas funcionais, como a constipação crônica, as experiências somáticas das emoções (angústia, ansiedade, distúrbios de humor, depressão, síndrome de pânico, fobia social, etc.) além de distúrbios de conduta como o alcoolismo, o tabagismo, as toxicomanias, entre outros, dando destaque ainda aos distúrbios de conduta alimentar, tais como, a anorexia, a bulimia nervosa ou obesidade que interferem na autoimagem do individuo gerando insatisfação com o próprio corpo.

Desta forma, podem comprometer assim as atividades realizadas diariamente.

As crianças expostas à violência podem apresentar elevação da probabilidade de uso de drogas (quando comparadas a outras crianças que não foram expostas à violência) e tendem a manifestar comportamentos agressivos, de autoflagelo, sexualização precoce, enurese noturna, alterações do sono, cefaléia, dores gástricas, desmaios, vômitos, dores em extremidades, paralisias, hiperventilação, além de distúrbios visuais, síndromes do intestino irritável, anorexia, bulimia, isolamento, tentativas de suicídio, irritabilidade, agressividade, ansiedade, perda de memória, histeria, depressão, pânico, relatos de medo, resistência em ir à escola, insegurança por estar na escola, mau rendimento escolar e atos deliberados de autoagressão ou automutilação.

Quando se trata de violência intrafamiliar, a pessoa violentada pode se tornar extremamente submissa, assustada, apresentando bloqueios em determinadas áreas de seu comportamento, podendo desenvolver processos sóciopsicopatológicos graves, que funcionarão como reações de defesa. Essas reações de defesa podem se manifestar ao se tornarem pais ou responsáveis, exacerbando características como dominação, explosão e tendência a descarregar toda sua agressividade e frustração em seu filho. A violência ainda pode ocasionar em longo prazo, gagueira, agressividade e sensações paranoicas, sendo ainda encontrada forte presença de sentimentos de solidão e maior incidência de relatos sobre a dificuldade de manter amigos.

Sendo assim, as doenças psicossomáticas interferem de maneira bastante significativa no cotidiano do indivíduo comprometendo a realização satisfatória das atividades de vida diária, produtivas e de lazer uma vez que as sensações dolorosas provocadas por algumas dessas doenças podem impedir o início ou mesmo a conclusão de alguma atividade e onde o stress psicológico, depressão e baixa autoestima podem causar isolamento e, portanto busca pela ausência de convívio social, agravando ainda mais algumas dessas patologias psicossomáticas, o que faz com que as consequências de um ato violento perdurem por muito mais tempo, acometendo questões cuja complexidade interfere significativamente na qualidade de vida dessas pessoas.

Apesar dos danos que podem ocorrer decorrentes de alguma violência sofrida, temos na psicossomática e na psicologia, meios de suavizar, superar ou mesmo suprimir essas consequências.

A Gestalt terapia, por exemplo, tem como caminho terapêutico a busca da homeostase.

A Homeostase é um processo dinâmico, que através da autorregulação, o organismo busca o equilíbrio, a saúde, embora possa divergir dos conceitos em geral sobre saúde ou equilíbrio. Muitas vezes uma doença crônica pode ter um caráter homeostático, tendo em vista que o indivíduo busca o alívio da dor e prefere lidar com aquela doença que possa causar menor dor. Assim, Perls,1977, refere-se a homeostase que pode ocorrer num processo de uma suposta doença:

… embora o neurótico queira ser “curado”, também se sente mais seguro e bem estruturado com sua neurose do que sem ela, e teme que a terapia bem sucedida o lance num buraco sem fundo. Ele preferiria suportar aquelas doenças que tem do que se precipitar noutras das quais não sabe nada. “( p.96)

A doença viria como uma manifestação das nossas insatisfações tanto pessoais quanto de nossas relações com o mundo, uma expressão do sofrimento ou um ajustamento criativo. Muitas vezes é a melhor forma que temos para enfrentar ou não uma situação da qual não estamos preparados ou temos dificuldade. Portanto a doença não é um “mal”, mas de uma certa forma, nos protege de outras situações ou expressa insatisfações temporárias.

Assim, o trabalho psicoterapêutico segue no sentido de deixar esse sintoma se expressar, libertando-se da dor que acoberta, dando expressão à verdadeira dor que acomete ao paciente.

A Gestalt terapia percorre junto com o paciente o processo de libertação do passado, das emoções contidas (expressas pelas doenças), e um resgate de si mesmo, da autoestima, da autovalorização, reintegração de suas partes que foram dilaceradas, buscando-se assim um novo equilíbrio, o resgate pessoal.

Outros aspectos também são trabalhados nos pacientes vítimas de violência. Podemos citar a resiliência, que é a capacidade que o indivíduo tem de se recuperar e se superar após o impacto de situações adversas; aprimorar o coping ou seja a capacidade de obter recursos pessoais em situações de stress, enfrentando ou fugindo de situações e autosuporte onde o indivíduo encontra em si a capacidade de proteger-se, confiar nas suas potencialidades tornando-se fortalecido.

Bibliografia

CALDEIRA, G. Psicossomática hoje. Revista da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática. Recife, v. 7, n.1/2, p.69-79, 2003. ISSN: 1518-7365.

CERCHIARI, E. A. N. Psicossomática um estudo histórico e epistemológico. Psicol. cienc. prof., dez. 2000, vol.20, no.4, p.64-79. ISSN 1414-9893.

IVANCKO, S.M. In: “A Compreensão Psicossomática do Órgão de Choque através do trabalho com Polaridades” Dissertação de Mestrado do Núcleo de Psicossomática e Psicologia Hospitalar da PUC-SP

MELLO FILHO,J. et al. Psicossomática Hoje. São Paulo: Artes Médicas, 1992

PERLS, FREDERICK – A Abordagem Gestáltica e Testemunha ocular da Terapia.1ªed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1977.

RODRIGUES,A.L.;GASPARINI,A.C.L.F. Uma perspectiva psicossocial em Psicossomática: via estresse e trabalho. In: _____ Mello Filho,J. et all Psicossomática Hoje. São Paulo: Artes Médicas, 1992 p. 93-107

SEYLE,H. STRESS – A Tensão da Vida. 2ªed. São Paulo: IBRASA, 1965.

Mini Currículo

-Profª do Curso de Especialização em Gestalt terapia do Instituto Gestalt de São Paulo e do Instituto Gestalt de Maringá (PR)

Mestre em Psicossomática e  Psicologia Hospitalar pela PUC-SP

Especialista em Gestalt-Terapia pelo Instituto Sedes Sapientiae – SP.

Especialista em Psicossomática pelo Instituto Brasileiro de Estudos Homeopáticos- IBEHE (UNAERP). 

Especialista em Psicossomática Chinesa pelo Instituto Internacional de Medicina Tradicional Chinesa Brasil – Pequim.

Especialista em Psiconeuroimunologia pelo Instituto Paulista de Stress, Psicossomática e Psiconeuroimunologia

Especialista em Diagnose e Terapia de Stress pelo Instituto Paulista de Stress, Psicossomática e Psiconeurimunologia.

-Especialista em Psicologia Hospitalar pelo Hospital das Clínicas da F.M.U.S.P.
Ex-docente da Universidade Paulista (UNIP).

Co-autora dos livros:  

 

-IVANCKO, S. M. . Prevenção e Manutenção da Saúde através da Compreensão do Órgão de Choque. In: Ênio Brito Pinto. (Org.). Gestalt-Terapia: Encontros. São Paulo: Instituto Gestalt de São Paulo, 2009, v. , p. 105-139.

-IVANCKO, S. M. . E o tratamento se inicia na Sala de Espera.. In: ValdemarAugusto Angerami- Camon. (Org.). Atualidades em psicologia da Saúde.1ªed. São Paulo: Thomson, 2004, v. 1, p. 1-185.

-IVANCKO, S. M. . Relação Médico-Paciente. In: Eleuze Mendonça. (Org.). Um Enigma chamado Endometriose. 1/1 ed. Belo Horizonte: Livraria e Editora Health, 1998, v. 1, p. 194-203

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